Euribor a subir: os preços das casas vão descer em 2026?
O BCE voltou a subir os juros e a Euribor passou os 3%. O que isso significa para os preços das casas em Lisboa, com dados do INE e do Banco de Portugal.
Depois de quase dois anos de juros a descer, 2026 trouxe uma inversão: o Banco Central Europeu (BCE) voltou a subir as taxas de juro — em junho e novamente em setembro —, perante uma inflação mais alta, puxada sobretudo pela energia. A Euribor acompanhou o movimento e a pergunta que mais ouço de clientes é sempre a mesma: “Os preços das casas vão finalmente descer?”
A resposta honesta é: o mercado está a abrandar, mas isso não significa que os preços vão cair a pique. Vejamos porquê, com números.
O que mudou nos juros em 2026
| Indicador | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Taxa de depósito do BCE | 2,50% (após subidas em junho e setembro) | BCE |
| Euribor a 12 meses | ≈ 3,18% (12 de outubro de 2026) | EMMI / ECO |
| Taxa média dos novos créditos à habitação | 3,00% (agosto de 2026) | Banco de Portugal |
| Taxa média em taxa mista | 2,86% | Banco de Portugal |
| Taxa média em taxa variável | 3,23% | Banco de Portugal |
Repare num detalhe importante: 87% dos novos créditos à habitação em agosto foram feitos a taxa mista (fixa nos primeiros anos). Isto protege, por agora, quem comprou recentemente — mas não quem tem crédito antigo a taxa variável, que sente cada subida da Euribor na prestação seguinte.
Como é que a Euribor chega aos preços das casas
O mecanismo é simples:
- Juros mais altos = prestações mais altas. Num crédito de 200.000 € a 30 anos, passar de 3% para 4% de taxa aumenta a prestação em cerca de 112 € por mês.
- Prestações mais altas = bancos emprestam menos. Os bancos não podem aprovar créditos com prestações acima de uma percentagem do rendimento (a taxa de esforço), que o Banco de Portugal baixou de 50% para 45% a partir de 1 de agosto de 2026.
- Menos crédito = menos compradores capazes de pagar o preço pedido.
- Menos compradores = mais tempo à venda e mais margem para negociar.
| Taxa de juro | Prestação (200.000 €, 30 anos) |
|---|---|
| 2,5% | ≈ 790 € |
| 3,0% | ≈ 843 € |
| 3,5% | ≈ 898 € |
| 4,0% | ≈ 955 € |
| 4,5% | ≈ 1.013 € |
O que os dados já mostram
Os números do INE para o 2.º trimestre de 2026 contam uma história com duas partes:
- Os preços continuam a subir: +16,5% em termos homólogos (abrandamento face aos +17,8% do trimestre anterior). As casas usadas subiram 18,0% e as novas 12,3%.
- Mas vende-se menos: o número de transações caiu 6,4%.
Este padrão — volume a cair enquanto os preços ainda sobem — é historicamente o primeiro sinal de abrandamento de um mercado imobiliário. Os vendedores ainda pedem preços altos; os compradores começam a não conseguir acompanhar. Normalmente, o ajuste faz-se primeiro no tempo de venda e nas margens de negociação, e só depois (se o aperto continuar) nos preços.
Então, os preços vão descer?
O Banco de Portugal tem avisado, no seu Relatório de Estabilidade Financeira, que existe risco de correção abrupta dos preços, sobretudo se a economia abrandar. É um risco real e deve ser levado a sério. Mas há fatores que, em Lisboa, travam uma descida generalizada:
| Fatores que pressionam os preços para baixo | Fatores que sustentam os preços |
|---|---|
| Juros e Euribor a subir | Falta crónica de casas novas |
| Taxa de esforço máxima mais apertada (45%) | Procura estrangeira com capital próprio (sem depender de crédito) |
| Endividamento das famílias mais alto | Rendas muito elevadas (≈17,8 €/m² nos novos contratos em Lisboa), que empurram para a compra |
| Possível fim da garantia pública a jovens em dezembro de 2026 | Escassez de casas à venda nos bairros mais procurados |
O cenário mais provável, com a informação disponível hoje, é um abrandamento: subidas de preço cada vez menores, mais tempo de venda e mais negociação — com descidas concretas nos imóveis que estão acima do valor de mercado ou em zonas onde a procura depende muito de crédito. Ninguém consegue garantir o que vai acontecer; quem o fizer está a vender certezas que não existem.
O que isto significa para si
Se vai vender
- O tempo de “pôr à venda por qualquer preço e esperar” está a acabar. O preço certo desde o primeiro dia é agora mais importante do que nunca.
- Prepare-se para compradores mais exigentes e para avaliações bancárias mais prudentes. Veja como avaliar a sua casa corretamente.
Se vai comprar
- Ganhou poder negocial — sobretudo em imóveis há muito tempo no mercado.
- Escolha bem o tipo de taxa: veja taxa fixa, mista ou variável e como proteger a sua prestação.
- Se tem até 35 anos, tenha em conta que a garantia pública está prevista apenas até ao fim de 2026.
Conclusão
A Euribor a subir é um travão, não um precipício. Em 2026 o mercado de Lisboa está a passar de uma fase de euforia para uma fase de seleção: os imóveis bem posicionados continuam a vender; os sobrevalorizados ficam parados. Para quem vende, a estratégia de preço é decisiva. Para quem compra, é altura de negociar com dados.
Perguntas frequentes
A subida da Euribor faz baixar os preços das casas?
Normalmente trava a subida, porque reduz o montante que os bancos emprestam e afasta parte dos compradores. A primeira consequência costuma ser a queda do número de vendas e o aumento do tempo de venda; descidas de preço surgem depois, sobretudo nos imóveis acima do valor de mercado.
Devo esperar que os preços desçam para comprar casa?
Esperar tem custos: rendas a subir, juros que podem continuar a subir e o possível fim de apoios como a garantia pública no final de 2026. Faça contas ao seu caso concreto, comparando o custo de esperar com o risco de comprar agora.
Quanto aumenta a prestação se a Euribor subir 1 ponto percentual?
Num crédito de 200.000 euros a 30 anos, a prestação passa de cerca de 843 euros (taxa de 3%) para cerca de 955 euros (taxa de 4%), ou seja, mais 112 euros por mês.
Fontes
- BCE — Decisões de política monetária, 10 de setembro de 2026
- ECO — Euribor a 12 meses em 12 de outubro de 2026
- Observador — INE: preços das casas sobem 16,5% no 2.º trimestre, transações caem 6,4%
- Banco de Portugal — Relatório de Estabilidade Financeira, maio de 2026
- Banco de Portugal — Taxas de juro de novos empréstimos, agosto de 2026
Informação de caráter geral, atualizada à data indicada. Valores, taxas e regras fiscais mudam: confirme sempre o seu caso concreto no Portal das Finanças, com o seu banco ou com um profissional qualificado.