Mercado e juros

Garantia pública e IMT Jovem: porque é que estão a pressionar os preços das casas

A garantia do Estado já financiou cerca de 40 mil casas a jovens e o Banco de Portugal alerta para o efeito nos preços. O mecanismo e os números.

Mãos a contar notas de euro

Desde o final de 2024, os jovens até 35 anos que compram a primeira casa têm dois apoios fortes: a isenção de IMT e Imposto do Selo e a garantia pública do Estado, que permite financiar até 100% do preço. As medidas tiveram enorme adesão — e trouxeram também um efeito secundário que hoje está no centro do debate: a pressão sobre os preços das casas.

Como funcionam os dois apoios

IMT Jovem Garantia pública
Para quem Até 35 anos, primeira habitação própria e permanente Até 35 anos, primeira habitação própria e permanente
Limite de valor Isenção total até 330.539 € (2026); parcial até 660.982 € Imóvel até 450.000 €
O que dá Não paga IMT nem Imposto do Selo de aquisição O Estado garante até 15% do empréstimo — o banco pode financiar até 100%
Rendimento — Rendimento coletável até ao 8.º escalão do IRS
Prazo Em vigor Contratos até 31 de dezembro de 2026

Os números da adesão

  • No 1.º trimestre de 2026, cerca de 49,5% dos créditos à habitação contratados por jovens até 35 anos recorreram à garantia do Estado.
  • Até julho de 2026, a garantia já tinha ajudado a financiar cerca de 40 mil casas.
  • A procura superou as previsões e o Governo reforçou o montante disponível em 750 milhões de euros.

Porque é que isto pressiona os preços

A lógica económica é direta. A garantia pública resolveu o maior obstáculo dos jovens — não ter os 10% a 20% de entrada. De um dia para o outro, milhares de pessoas que não podiam comprar passaram a poder. Mas o número de casas à venda não aumentou ao mesmo ritmo.

Quando a procura cresce mais depressa do que a oferta, o resultado é previsível:

  1. Mais compradores a disputar as mesmas casas, sobretudo T1 e T2 nos segmentos abrangidos.
  2. Os vendedores percebem a procura e ajustam os preços pedidos.
  3. Os preços tendem a aproximar-se dos limites dos apoios — uma casa de 300 mil euros fica, na prática, “acessível” a muitos mais compradores do que antes.

Os limites de 330.539 € (IMT Jovem) e 450.000 € (garantia pública) funcionam assim como referências de mercado. É nestes segmentos — apartamentos de tipologias médias, nos concelhos à volta de Lisboa e nas freguesias de “segunda linha” da cidade — que a pressão da procura jovem mais se faz sentir.

O que dizem o Banco de Portugal e o Governo

  • Banco de Portugal: considera que a garantia pública pode ter contribuído para a subida dos preços e alerta para o risco. Segundo o regulador, a proporção de novos créditos concedidos a mutuários de risco elevado subiu de 3% em 2024 para 21% em 2025, em grande parte por causa destes créditos — financiamentos a 100%, prazos longos e taxas de esforço altas. Foi também neste contexto que o Banco de Portugal baixou a taxa de esforço máxima recomendada de 50% para 45% a partir de agosto de 2026.
  • Governo: tem mantido a medida e afasta a ideia de que seja a causa da subida de preços, apontando a falta de oferta de habitação como o problema principal.

As duas leituras não são incompatíveis: a falta de oferta é a causa de fundo; os apoios à procura, sem oferta nova, acrescentam pressão.

Financiar a 100%: o custo escondido

A garantia pública não reduz o preço da casa — permite pedir mais dinheiro emprestado. Exemplo para uma casa de 300.000 €, a 40 anos e com taxa de 3%:

Financiamento 90% Financiamento 100%
Montante do crédito 270.000 € 300.000 €
Prestação mensal ≈ 967 € ≈ 1.074 €
Total de juros pagos (40 anos) ≈ 194.000 € ≈ 215.500 €

Financiar a 100% custa, neste exemplo, cerca de 107 € por mês e mais de 21 mil euros em juros ao longo do empréstimo. E com a Euribor a subir em 2026, a margem de segurança das famílias mais endividadas fica mais curta. Veja como a Euribor está a afetar o mercado.

O que fazer se tem até 35 anos

  1. Use os apoios, mas com contas feitas. A isenção de IMT é dinheiro poupado; o financiamento a 100% é dívida extra.
  2. Não estique o orçamento até ao limite só porque o banco aprova. Uma prestação confortável hoje pode deixar de o ser com juros mais altos.
  3. Atenção ao prazo: a garantia está prevista apenas até ao fim de 2026 — veja o que fazer antes de dezembro.
  4. Negocie o preço. Saber que o vendedor está a contar com a sua garantia pública não o obriga a pagar mais do que a casa vale.

Leia também o guia completo do IMT Jovem.

Perguntas frequentes

A garantia pública fez subir o preço das casas?

É debatido. O Banco de Portugal considera que a medida pode ter contribuído para a subida dos preços, porque aumentou o número de compradores com acesso a crédito sem aumentar a oferta. O Governo tem defendido que o problema principal é a falta de casas.

Até que valor de casa se aplica a garantia pública?

O imóvel não pode exceder 450.000 euros (o menor entre o preço de compra e o valor de avaliação). O Estado garante até 15% do valor, o que permite ao banco financiar até 100%.

Até quando existe a garantia pública?

Está prevista para contratos celebrados até 31 de dezembro de 2026. A lei admite prorrogação, mas, à data deste artigo, não há confirmação oficial de prolongamento.

Fontes

Informação de caráter geral, atualizada à data indicada. Valores, taxas e regras fiscais mudam: confirme sempre o seu caso concreto no Portal das Finanças, com o seu banco ou com um profissional qualificado.

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